Após pigarrear levemente e mudar sua feição cínica de manipulador, pediu desculpas, ofereceu um adeus repentino e deixou a prisão.
Enfrear
Vultos atropelados pedem lugar
Na mesa dos desconhecidos lamentos humanos
Do sangue frio, da gargalhada
Seca na garganta
Fantasmas atropelados estacionam no ar
Prendem à gélida respiração alguns anos
Da face aterrorizada
Na hora da janta
Fantamas são diariamente atropelados no acostamento
De uma estrada não vista e vasta
Vivem do último sentimento
Da penúltima nota de suor.
Na mesa dos desconhecidos lamentos humanos
Do sangue frio, da gargalhada
Seca na garganta
Fantasmas atropelados estacionam no ar
Prendem à gélida respiração alguns anos
Da face aterrorizada
Na hora da janta
Fantamas são diariamente atropelados no acostamento
De uma estrada não vista e vasta
Vivem do último sentimento
Da penúltima nota de suor.
O pio dos pássaros
Ainda é escuro, mas já cantam os pássaros. Aqueles pios incomodam. Me pergunto se os pássaros não tem mais o que fazer. Evidentemente, o problema é comigo, pois nunca ouvi ninguém reclamar dos pios dos pássaros às 4:30 da manhã.
Senti o cansaço do ócio, por mais que pareça estranho e senti o peso da inutilidade. Lixo, me xinguei.
-
Sempre planejei demais, meticulei demais e me preparei demais pra coisas que nunca vieram a acontecer. Imaginei loucuras, naveguei pelas vontades que foram se acumulando aqui, conformadas com o fato de nunca encontrarem a liberdade. Foram sedimentando, sedimentando, até virarem rocha.
-
Enquanto o dia ia nascendo, eu chorava como um bebê. Derramava lágrimas gratuitamente, à espera de um conforto, à espera daquela voz que afasta o medo e diz que está tudo bem. Tudo o que pude ouvir foram os meus soluços e o pio dos pássaros às 5:00 da manhã.
-
A rocha não era tão rocha assim. Pude senti-la se fragmentando rapidamente e me devolvendo o vazio habitual. Nesse momento, eu senti que tinha voltado de longas férias e que estava no comando novamente. Imaginei se isso não seria perceptível ao mundo ao meu redor.
-
Enquanto me afogava nas lágrimas, eu bocejei. Sinal de que a qualquer momento, sem que eu percebesse, aquele choro ia dar lugar a um sono que me traria algumas horas de anestesia, até retornar ao mundo real. E depois?
-
Acordei ao meio dia. Atendi o telefone. Ninguém percebeu.
-
Acordei ao meio dia. Atendi o telefone. Caiu a ficha; eu estava de volta. Mas nada estava diferente de quando eu fechei os olhos. Salvo a única: não havia o pio dos pássaros.
Senti o cansaço do ócio, por mais que pareça estranho e senti o peso da inutilidade. Lixo, me xinguei.
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Sempre planejei demais, meticulei demais e me preparei demais pra coisas que nunca vieram a acontecer. Imaginei loucuras, naveguei pelas vontades que foram se acumulando aqui, conformadas com o fato de nunca encontrarem a liberdade. Foram sedimentando, sedimentando, até virarem rocha.
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Enquanto o dia ia nascendo, eu chorava como um bebê. Derramava lágrimas gratuitamente, à espera de um conforto, à espera daquela voz que afasta o medo e diz que está tudo bem. Tudo o que pude ouvir foram os meus soluços e o pio dos pássaros às 5:00 da manhã.
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A rocha não era tão rocha assim. Pude senti-la se fragmentando rapidamente e me devolvendo o vazio habitual. Nesse momento, eu senti que tinha voltado de longas férias e que estava no comando novamente. Imaginei se isso não seria perceptível ao mundo ao meu redor.
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Enquanto me afogava nas lágrimas, eu bocejei. Sinal de que a qualquer momento, sem que eu percebesse, aquele choro ia dar lugar a um sono que me traria algumas horas de anestesia, até retornar ao mundo real. E depois?
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Acordei ao meio dia. Atendi o telefone. Ninguém percebeu.
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Acordei ao meio dia. Atendi o telefone. Caiu a ficha; eu estava de volta. Mas nada estava diferente de quando eu fechei os olhos. Salvo a única: não havia o pio dos pássaros.
A visão de um mundo falido
Deixei correr por entre os lábios
Uma pronúncia que não entende
Você com seus olhos
Eu, com meus desejos
Eles, com a cegueira de gente
Deixei, mas não rapidamente
Segurei firme a um riso
Passo que fiquei morto de mim
Encostei palavras de arrepio
Você, de pescoço friamente
Esquivei minha raiva à prisão
Confundi conforto com gratidão
Engasguei demais a palavra certa
Você, que quase me acerta
Eles, os tempos, que nos seguirão.
Uma pronúncia que não entende
Você com seus olhos
Eu, com meus desejos
Eles, com a cegueira de gente
Deixei, mas não rapidamente
Segurei firme a um riso
Passo que fiquei morto de mim
Encostei palavras de arrepio
Você, de pescoço friamente
Esquivei minha raiva à prisão
Confundi conforto com gratidão
Engasguei demais a palavra certa
Você, que quase me acerta
Eles, os tempos, que nos seguirão.
Loney, dear
Ela simplesmente não me chamou pra dançar. Ao tirar suas sandálias incomodantes e questionar minha capacidade de dançarino, me levou a um lugar aberto, sereno, repleto de ar. Enquanto um som tocava fora de mim, dentro nada se ouvia senão o bater silencioso de meus pulsos. Só havia sonhado assim uma vez. Mas aquele momento foi diferente. Foi acidental, natural, espontâneo. Sensações que nenhuma substância traz me vieram e posso dizer certo de mim: a mente é sem dúvida droga de si mesma.
ANÚNCIOS INALANTES
Vende-se incenso para aumento da sensação nauseante de um ambiente podre, sujo, espinhado. Com teor revigorante de pedra de dejeto de cão ao sol de uma tarde de domingo claro. Essência de carro paulistano para proximidade com o urbano cheiro.
Nota: tendência ao vício, inalar com cuidado.
"Brinquedo sério" - letra de Alice Ruiz
Eu só brinco
quando é muito sério é muito sério
ser o teu brinquedo
Não tem mistério
não tem segredo
quando a gente brinca
quando a coisa é séria
quando o teu limite
é tão perfeito
quando ser brinquedo
pode ser tão sério
Pode haver um dia
em que a poesia
mude de endereço
deixe apenas tédio
mas enquanto isso
vem brincar comigo
vamos até onde
possa ser só riso
possa ir tão longe
possa ser tão lindo
pode ser brinquedo
pode ser tão sério
quando é muito sério é muito sério
ser o teu brinquedo
Não tem mistério
não tem segredo
quando a gente brinca
quando a coisa é séria
quando o teu limite
é tão perfeito
quando ser brinquedo
pode ser tão sério
Pode haver um dia
em que a poesia
mude de endereço
deixe apenas tédio
mas enquanto isso
vem brincar comigo
vamos até onde
possa ser só riso
possa ir tão longe
possa ser tão lindo
pode ser brinquedo
pode ser tão sério
Procura-se essência
Acho que levei alguns meses pra chegar à conclusão correta do meu problema. Eu estava tentando descobrir como me tornei tão racional. Não que isso seja ruim... Evita uma série de coisas, mas eu sinto que perdi a essência. Me tornei comum e com pensamentos comuns, enfim, me tornei o tipo de gente que sempre critiquei. Mas por que? Como me deixei levar. É simples. Lavagem cerebral. O homem é produto do meio. Quem nunca ouviu isso. Se você convive com pessoas assim, você acaba como elas. "Ah, não. Eu não me deixo influeciar". Deixa sim, mas chega uma hora que você percebe o quanto foi insano e tenta recuperar a sua essência. É isso que estou fazendo. Quando eu conseguir, espero voltar a escrever decentemente.
Auto-expulsão
De casa caia seu medo
De casa entorna sofrimento
De casa os homens brotarão
Sustento de livre segredo.
De casa hoje sairá
De casa num futuro agora
E antes que possa falar
De casa oca ignora.
Um choro doente revela
O quão lágrimas não existem
De casa integra-se a ela
De casa coisa fauna e flora.
De casa entorna sofrimento
De casa os homens brotarão
Sustento de livre segredo.
De casa hoje sairá
De casa num futuro agora
E antes que possa falar
De casa oca ignora.
Um choro doente revela
O quão lágrimas não existem
De casa integra-se a ela
De casa coisa fauna e flora.
Célebre
Tenho pena de novo. Do fajuto raio a infiltrar meus poros. Não achará nada, ou achará pedaços ocos de capilares a divagar como um rio. Vago meu escritório cheio, e percebo a luz solar invadir-me amargamente. Luz com sabor, pensei, é a pura comprovação de embriaguez. Mas mesmo não embriagado, pude ver/saborear a luz do sol. Seu beijo amargo cativa-me todas as manhãs de desapego. Todas as manhãs quando volto a atenção para os mortos desse mundo, o sol me ressucita. Frágil e com um toque quente, sou um novo vivo matinal. Coloco pimenta em meu café, dou meia volta e volto a morrer.
Mesmo que os comprimidos rolem de raiva e os quadros desta casa entortem todos loucos de fúria, rezarei por você.
Um casal
Ela disse não, ele também disse não. Falaram ao mesmo tempo e sobre a mesma coisa. Pararam de fumar e voltaram a beber. Viajaram juntos, dormiram juntos e acordaram separados. Dividem o mesmo carro, mas só ele dirige. Gostam de comer, mas só ela cozinha. Acreditam em Jesus, mas não em Deus. Não choram vendo filmes e não gostam de ler livros. Ele come o cereal e ela toma o leite. Ele dá o pão e ela põe o queijo. Ela lava a roupa e ele veste. Ele dorme fora e ela usa a cama. Não tem filhos ou animal de estimação. Não estimam um ao outro. Ele volta a fumar e ela não para de beber. Não têm família. Ele tem amigas, ela tem amantes.
"Vagão" por Diógenes
Perdeu-se, sentada
Em ilusórios destinos pós-destinados
Perdeu-se por inteira
Nas calçadas esburacadas do Recife.
Seus ganhos eram moeda desvalorizada
Perdeu-se sozinha e acompanhada
No país do esquecimento
Na cidade mal-acabada
Mal-planejada, perdeu-se por dentro
Mal-escrita em seus pensamentos
Sem pena, depenaram-na vagabunda
E por fim perdeu-se em contentamento.
Em ilusórios destinos pós-destinados
Perdeu-se por inteira
Nas calçadas esburacadas do Recife.
Seus ganhos eram moeda desvalorizada
Perdeu-se sozinha e acompanhada
No país do esquecimento
Na cidade mal-acabada
Mal-planejada, perdeu-se por dentro
Mal-escrita em seus pensamentos
Sem pena, depenaram-na vagabunda
E por fim perdeu-se em contentamento.
O destino do poeta
andando por entre os meios desastrosos, em esquinas nuas e amarelas como os olhos do cão, reza pelo futuro o poeta sem gosto. não seu sossego o encomoda, mas sua cara de homem sincero e correto normal. é dito pelos deuses que o poeta grita seu nome alto para os outros humanos reconhecerem a vergonha estampada e sóbria dos que não amanhecem ou dos que não degustam os dezoito segundos antes do pôr-do-dol. o registro do destino do poeta fica óbvio às margens de uma tristeza não vista, e assim por dizer uma tristeza ambígua, reveladora das máscaras adquiridas.
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